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26/07/2008

III Capítulo (1ª parte) Na companhia de Hipnos

Seguimos caminho por entre prados verdejantes cobertos de papoilas até encontramos algo semelhante uma caverna que aparentava ser escura e húmida. Tinha um ar sombrio, mas confesso que pela primeira vez desde que ali estava, começava a sentir fome e frio. Não sei, se de receio, se de cansaço. Porque demoraria tanto Morpheu? Sentia a sua falta, mas ao mesmo tempo temia que me tivesse desprezado, pelos meus pensamentos ao ver Hipnos. Contudo a sua preocupação comigo, não condizia com uma atitude de desprezo.

-Entra que ficarás surpreendida. - Disse Hipnos com um brilho sereno no olhar.

De facto mal atravessara o limiar da caverna, verifiquei que o seu interior era digno de um palácio mais rico rei de todos os reis. Atravessámos um salão enorme cujo tecto era uma imensa abóbada de vidro de onde podíamos ver as estrelas do manto Nix. O chão parecia também de vidro e ao olharmos para baixo víamos papoilas e prados por entre nuvens. Entramos noutro salão onde sobre uma enorme mesa se encontravam todo o tipo de manjares.

Hipnos convidou-me a sentar-me a seu lado. Sabia que era uma enorme honra para uma mortal. Ele próprio me servia uma travessa do mais delicioso dos manjares acompanhado do verdadeiro néctar de Dionísio. Depois de me sentir saciada e até porque com o cansaço o néctar de Dionísio parecia começar a surtir efeito sobre mim pedi:

-Então sempre posso saber porque Morpheu receia que Thanatos se aproxime, se dizes que aqui ele não tem poder?

-Sabes quem é Thanatos – perguntou-me.

-Sim. Posso dizer que é o mensageiro da morte...

-De facto podes dizê-lo. Em tempos que já lá vão Morpheu disputou o amor de Perséfone com Hades, mas este último venceu com ajuda de Thanatos que se queria vingar de Morpheu. Enquanto Morpheu povoar os mortais de sonhos, Thanatos nunca cumprirá os seus caprichos a seu bel-prazer.

-E o que aconteceu a Pérsefone? – Eu conhecia a versão da história contada pelos mortais, mas agora queria saber a verdade dos deuses.

-É rainha ao lado do Hades pois comeu a romã.

Nisto olhei para a mesa temendo se teria comido romã sem me aperceber. vi que nenhuma se encontrava sobre a mesa. Hipnos percebeu o meu olhar e apenas respondeu:

-Se um dia comeres os bagos da romã para mim, será por tua vontade e não por minha.

-Desculpa. -Disse eu, sentindo uma certa vergonha do meu receio.

-Fica descansada, eu compreendo os teus receios. - E continuou a contar o que sucedera.

- Morpheu teve de se conformar em não poder mais conquistar o amor de Perséfone. Até que um dia decidiu por capricho contra Cronos auxiliar uma mortal como tu. As vossas parecenças são mesmo mais do que muitas. No entanto ela tinha perdido confiança nos humanos e em si própria, e apesar das juras de Morpheu e deste a tratar como uma rainha, ela duvidava do amor de Morpheu e das suas intenções. Achava que Morpheu a iludia e deixou de acreditar nos sonhos. Icelus começou a importuná-la na ausência de Morpheu e quando Morpheu regressava, ela convencida de que era obra do próprio Morpheu rejeitava-o. Até um dia este assistir ao que se passava, e impedir que Icelus a voltasse a importunar. Morpheu disse-lhe que Eros tinha razão ao dizer que sem confiança o amor não existia e retirou-se magoado.

Ela arrependida de não ter acreditado nele caiu no desespero e quis tentar reconquistá-lo. Hera prometeu ajudá-la se ela lhe fizesse um único favor. Pedia-lhe que descesse ao Hades e pedisse a Pérsefone um pouco da sua beleza para entregar a Hera. Era impossível para uma mortal voltar do Hades sem auxílio de um Deus e no seu desespero entregou-se aos braços de Thanatos que a seduziu.

Morpheu pressentiu o perigo pois ainda a amava, mas tarde demais, pois esta entregara a sua alma ao Hades em troca do amor e perdão de Morpheu que Thanatos lhe prometera. Só quando percebeu que tinha saído traída gritou por Morpheu, mas era tarde demais. Nessa noite Morpheu e Thanatos discutiram violentamente e Morpheu perseguiu Thanatos, salvando todas as almas mortais de quem este se aproximava. Depois conseguiu que Zeus lhe retirasse poder nos domínios de Morpheu, pois não o pode proibir de entrar, uma vez que eu e ele somos irmãos gémeos. Thanatos prometeu vingar-se, mas o poder de Morpheu e a sua influência junto de Zeus é grande.

– Então se Thanatos não tem poder no reino de Morpheu, o que ele teme?

-Teme que ele te possa seduzir, num momento de fraqueza como o fez com a sua última protegida, e sobre a tua vontade Morpheu não tem poder.

Cerrei um pouco os olhos de cansaço

-Queres repousar?

-Sim. Gostaria.

Levanta-te e segue-me. Entrámos noutro salão onde só se encontrava uma enorme cama coberta de suaves lençóis e de umas cortinas de um azul celeste translúcido que deixavam adivinhar um repouso deleitado naquele leito. Junto da cama apenas se encontrava uma enorme lira que ao olhar de Hipnos começou por si só a tocar uma suave melodia.

Sentia-me zonza com o vinho a que chamara licor de Dionísio, ao mesmo tempo que me sentia confusa por ter tido dúvidas em relação a Morpheu. Estava um pouco receosa, não hesitei em perguntar:

-Aqui estarei segura?

Ao que Hipnos se acercou de mim e me tomou nos braços enquanto me deitava e dizia:

-Confia em mim. Não te trairei. Aqui estás segura. Consegues confiar em mim?

Lembro-me de ter pensado ainda " Morpheu, porque não és tu a carregar-me ao colo, porque me atiras nos braços de Hipnos? "Enquanto respondia:

- Não tenho outra escolha senão confiar. – E entreguei-me ao abraço dourado de Hipnos, que sorrindo afagou-me meigamente e só me lembro de sentir uma enorme sensação de prazer e fechar os olhos.

18/07/2008

II Capítulo (final de capítulo)

- Da tua beleza. Tens uma beleza digna de uma Deusa. Acho que Morpheu se encantou pela tua beleza e não é para menos. - Conforme dizia estas palavras Hipnos afagava-me o rosto, desenhando-o com os seus dedos. O seu toque era sereno. A seu lado não sentia a segurança que sentia com Morpheu, nem aquela sensação de ter surpresas a qualquer momento, mas sentia-me tranquila e serena com Hipnos.

- Que estranho! - Disse eu - Pensava que dormir era estar ao lado do Deus do sono e afinal aqui estou eu, ao seu lado e nem quero dormir.

Hipnos não conseguiu evitar de rir.

- Como estão iludidos os mortais. São apenas poderes que nós temos. O facto de ser o Deus do sono significa tenho o dom de fazer dormir e repousar quem precisar, mas também que posso usar o sono eterno para me defender dos meus inimigos. Não significa que perante a minha presença se tenha necessariamente que dormir.

Estava tão maravilhada com a presença de Hipnos, sentia-me tranquila na sua companhia, que nem me apercebi que Morpheu tardava em voltar.

De repente a luz começava a desaparecer e aos poucos uma escuridão semelhante à noite começava a cobrir parte do reino.

- Aqui também anoitece?

-Sim. Quando a rainha do escuro manto de estrelas, estende o seu manto. Este cobre grande parte do Universo.

- Quem?

-Nix a rainha da noite. É melhor nos recolhermos.

- E Morpheu como nos encontrará?- Perguntei eu.

- Não te preocupes. Ele saberá onde nos encontrar. Basta que ele pense em ti que te encontrará.Deves querer comer alguma coisa?

- Sim. Confesso que com tudo isto me saberia bem saborear um jantar.

-Então vem comigo. És minha convidada. Morpheu parece demorar...

De repente lembrei-me das palavras do meu protector, da preocupação de Morpheu que Thanatos se aproximasse de mim, o temor assolou-me a mente.

-Para onde? Thanatos não vive contigo?

- Sim. Mas podes ficar descansada. Thanatos não se aproximará de ti. Ele vive comigo nos campos elísios. Mas não habita a minha morada no reino de Morpheu.

Sentia-me abandonada por Morpheu. Confiei nas palavras de Hipnos e segui-o. Este pegou-me pela mão e percebendo a minha inquietação tentou serenar-me:

-Não te preocupes. Nada de mal te acontecerá.

- Responde-me só a mais uma pergunta. Qual o motivo da preocupação de Morpheu com Thanatos?

Os olhos de Hipnos não conseguiram esconder alguma consternação com a minha questão. Porém respondeu-me:

- É uma longa história, mas descansa que Thanatos só tem poder fora dos domínios de Morpheu e a minha morada ainda pertence aos domínios de Morpheu.

- O que aconteceu? – Perguntei receosa e curiosa.

- Contar-te-ei tudo enquanto comermos. Agora vem.

16/07/2008

II Capítulo (3º parte)

Inquietava-me a ironia na voz de Morpheu, a sua preocupação que Thanatos se aproximasse de mim. Estaria morta e ele não me queria dizer? Estudara que o rio Letes passava junto do reino de Hades, o reino dos mortos. E lembrava-me de termos passeado junto às suas margens. Seria que tudo era tão belo e sereno como eu via, ou tudo era uma ilusão gerada por Morpheu pois este dissera que isto era o sonho que eu escolhera. Hipnos interrompeu-me a torrente de pensamentos e interrogações que iam na minha mente:

- Em que pensas?

-Desculpa esqueci-me que, não lês pensamentos. Estou morta? – Perguntei sem levantar o olhar. Hipnos sorriu.

- Não. Acredita. Este é o reino de Morpheu e és sua protegida. Morpheu não tem qualquer poder sobre os mortos ou sobre o seu reino. Temes que ele te iluda? -respondeu Hipnos irradiando um brilho dourado que pareciam raios de sol a emanar dos seus cabelos doirados.

- Sim. Ele é Morpheu o deus dos sonhos criador de ilusões. Eu sou apenas uma entre tantas mortais. Se não estou morta porque é que estou aqui? O que levaria um Deus a auxiliar uma mera mortal como eu?

- Os Deuses são caprichosos. É um capricho de Morpheu. Mas não penses que és a primeira mortal que Morpheu auxilia. Ele gosta de mostrar o seu poder perante Cronos. Quanto ao resto terás de perguntar a Morpheu. Pois este costuma assumir as formas desejadas pelas mortais, mas perante ti, mostrou-se como é. Por isso se criou alguma ilusão foi para te proteger. E consigo perceber porque correu em teu auxílio.

-Não tinhas dito por capricho? Para mostrar o seu poder a Cronos? - Disse eu com uma ponta de ironia.

Hipnos sorriu.

-Não tens consciência pois não?

-De quê? -perguntei sem perceber onde queria chegar.